Ele saberia.
O que significava que ele agiria em breve.
"Capitão," disse Mara, virando-se para a tripulação, "ouçam com atenção. Em cerca de 3 minutos a ajuda vai chegar. Eu transmito nossa posição e situação em todas as frequências disponíveis. Em algum lugar, alguém está tirando os interceptadores do chão. Victor também sabe disso."
"Então, o que pretende fazer?" perguntou o capitão.
"Ele vai tentar nos derrubar antes que a ajuda chegue."
"Ele terá duas possibilidades. Atire em nós e mate todo mundo, ou nos force a pousar onde ele quiser."
O capitão olhou para ela.
"Na sua opinião, qual ele escolherá?"
Mara lembrou de Victor, o homem que enfrentara anos antes.
Ele era implacável, mas não imprudente. Ele queria que ela soubesse que havia perdido. Ele gostaria que a derrota fosse pessoal.
"Isso vai nos forçar a descer", ela disse.
"O que significa que só temos uma chance de virar o jogo."
Você explicou o plano.
Era perigoso.
Dependia do tempo preciso e de um nível de controle que levava as capacidades de uma aeronave comercial ao limite com segurança.
O capitão ouviu, e seu rosto ficou pálido enquanto ela falava.
Quando terminou, ele a encarou.
"É loucura."
"Sim," disse Mara. "Mas é o único jeito."
No radar, o avião de Victor se reposicionou para o que se perfilava como uma manobra agressiva final.
Esta foi a fase final.
Mara colocou as mãos nos controles. A memória muscular tomou conta. Em sua mente, ele não estava mais no cockpit de um Boeing. Ela estava de volta a bordo de um F-16, onde tudo dependia do tempo, do instinto e do nervosismo constante.
"Lá vem ele", disse o capitão.
O avião de Victor acelerou em direção a eles em um ângulo projetado para forçá-los a mergulhar.
Uma manobra clássica de interceptação.
Mas Mara estava pronta.
No último segundo útil, ele fez algo que nenhum piloto de companhia aérea jamais tentaria.
Ele reduziu a potência dos motores, operou os freios a ar e deixou o avião cair.
O avião caiu abruptamente.
O avião de Victor passou por eles, passando por centenas de metros.
O avião tremeu violentamente. Os passageiros gritaram. Alarmes de perigo inundaram a cabine.
Então Mara trouxe os motores de volta à potência total e puxou com força.
As forças G empurraram todos para trás, contra os assentos. O avião gemeu sob a pressão, mas resistiu.
Quando chegaram, encontraram-se diretamente atrás do avião de Victor, em uma posição que o impedia de manobrar sem correr o risco de colisão.
Por 3 segundos, Mara transformou um avião comercial em algo completamente diferente.
O caçador não estava mais no controle.
A voz de Victor veio pelo rádio, afiada de surpresa e raiva.
"Impossível."
"Você esqueceu com quem estava lidando," disse Mara.
Então, no horizonte, ele os viu.
Dois caças emergem da luz como algo irreal.
Interceptadores militares, finalmente decolando da Islândia em resposta a sinais de socorro.
Victor também os viu.
Seu avião virou bruscamente e partiu. Em segundos, ele estava desaparecendo nas nuvens, não querendo ficar quando chegasse a hora de enfrentar uma oposição militar completa.
Os caças se posicionaram em escolta nas laterais do avião.
Uma nova voz foi ouvida no rádio, clara e profissional.
"Voo 417, aqui Tenente Collins da Força Aérea dos Estados Unidos. Nós identificamos você. Agora você está seguro. Continue pela rota original. Vamos escoltá-lo até Londres."
No cockpit, o capitão finalmente suspirou aliviado.
Suas mãos tremiam enquanto ele recuperava o controle.
"Você nos salvou", disse ele, a voz quebrada pela emoção. "Você salvou todos nós."
Mara não respondeu imediatamente.
Ele observou os lutadores em formação ao lado deles e pensou na vida que tentou deixar para trás, e em como ela a encontrou completamente.
Parte 3
Três horas depois, o voo 417 pousou no Aeroporto de Londres Heathrow.
Veículos de emergência se alinharam ao longo da pista enquanto o avião se aproximava. Caminhões de bombeiros, ambulâncias e unidades de segurança do aeroporto aguardavam ao longo da plataforma. Assim que o avião parou, equipes de segurança o cercaram.
Os dois passageiros hostis, que haviam ficado imobilizados na cabine, foram imediatamente presos. Os agentes os escoltaram para fora do avião algemados, enquanto os investigadores começaram a coletar os depoimentos da tripulação e dos passageiros.
No centro de tudo estava Mara Dalton.
Ele ainda usava o mesmo suéter verde. Ela ainda parecia a mesma passageira quieta que havia dormido no assento 8A poucas horas antes.
Mas agora os passageiros sabiam exatamente quem ele era.
Nas últimas horas do voo, a notícia se espalhou rapidamente na cabine. Pessoas que passaram a jornada com medo agora esperavam pacientemente no corredor só para poderem conversar com ela.
Alguns apertaram sua mão.
Alguns a abraçaram.
Alguns choraram de alívio.
A mãe que segurava uma criança pouco antes avançou e levantou o bebê levemente em direção a Mara.
"Você deu um futuro a ela", disse a mulher em voz baixa.
O empresário sentado no assento 8B, o mesmo que havia derrubado um dos passageiros armados, deu um tapinha nas costas de Mara.
"Você é um herói", disse simplesmente.
Mara não parecia uma heroína.
Ela se sentia exausta.
Ela se sentia exposta.
Acima de tudo, ele tinha a sensação de que a vida civil tranquila que tanto tentara construir havia se desfeito em algum lugar no Oceano Atlântico.
Os seguranças do aeroporto queriam interrogá-la. Agentes do serviço secreto solicitaram entrevistas. Do lado de fora do terminal, jornalistas já haviam se reunido após receber relatos dos eventos dramáticos ocorridos durante o voo.
Mas antes de tudo isso começar, Mara encontrou um canto tranquilo perto dos balcões do terminal.
Ele pegou o celular.
Teve uma ligação que ele absolutamente precisava fazer.
Seu antigo comandante atendeu o segundo toque.
"Dalton. Eu ouvi. Você está bem?"
"Estou bem, senhor", disse Mara.
"Mas Victor Klov ainda está por aí. E agora ele sabe com certeza que eu sobrevivi."
Ele fez uma pausa.
"Ele vai voltar."
Do outro lado do telefone, um longo silêncio caiu.
Finalmente, o agente falou.
"Então, o que você está dizendo?"
Mara olhou para o reflexo dele no vidro escuro da janela ao lado dela.
A mulher que me encarava estava usando um suéter verde. Ele parecia cansado, comum, quase anônimo.
Mas, na realidade, nunca tinha sido assim.
"Eu digo que cansei de correr", disse ele em voz baixa.
"Tentei a vida como civil. Tentei desaparecer. Mas hoje entendi algo."
Respirou fundo.
"Não posso escapar de quem eu sou. E talvez eu nem devesse tentar."
A voz do outro lado do telefone era cautelosa.
"Você está dizendo que quer voltar?"
Mara pensou nas 300 pessoas que estavam naquele avião.
Os estranhos que a olharam com esperança quando tudo deu errado.
Os passageiros que encontraram coragem sozinhos.
A garotinha cuja mãe agradeceu por lhe dar um futuro.
"Sim, senhor", respondeu ela.
"Quero voltar. Porque existem outros vencedores por aí."
"E alguém tem que detê-los."
Por um momento, o silêncio reinou.
Então seu antigo comandante retomou a fala.
"Bem-vindo de volta, Capitão Dalton."
Seis meses depois, Mara estava de volta ao uniforme.
Não era a mesma missão que ele ocupava antes.
Desta vez, ele fazia parte de uma unidade especializada encarregada de lidar com as mesmas ameaças que enfrentou naquele dia: agentes rebeldes, incidentes internacionais e situações localizadas no incerto espaço entre a aviação civil e o conflito militar.
Ela voou de novo.
Não missões de combate, mas missões de proteção.
Operações de escolta.
Intervenções de emergência.
Voos projetados para proteger vidas humanas, não para levá-las.
Às vezes, tarde da noite, depois de voltar de uma missão, ela pensava no Voo 417.
Ele se lembrava dos passageiros que também haviam se tornado heróis.
O empresário que confrontou o atirador.
O policial aposentado que interveio para deter o segundo agressor.
O capitão que confiou a vida de todos a bordo a um estranho.
E ela se lembrou da mulher que estava sentada no assento 8A, enrolada em um suéter verde, tentando com todas as forças se tornar outra pessoa.
Aquele lugar lhe ensinou algo importante.
As pessoas podem tentar se esconder do passado. Eles podem trocar de roupa, o lugar onde vivem, a vida inteira.
Mas quando surge uma crise, quando outros precisam de ajuda, sua verdadeira natureza sempre aparece.
Para a Capitã Mara Dalton, isso significava voar para o perigo, em vez de fugir dele.
Significava atender ao chamado quando ele chegasse a 35.000 pés de altitude.
Mesmo que naquele momento tudo o que ele quisesse fosse dormir tranquilamente no assento 8A.
