Tem controle manual total?
"Sim, mas eu sou piloto de linha aérea. Não sei como lidar com aeronaves com manobras agressivas."
"Sim," disse Mara. "Com sua permissão, gostaria de sentar no assento do copiloto."
O capitão assentiu imediatamente.
"Qualquer coisa. Só nos ajude."
O imediato saiu da cadeira, ainda pálido e suando. Mara tomou seu lugar e suas mãos repousaram nos controles com a familiaridade de um reflexo antigo. O jugo era diferente do de um caça, mas os princípios permaneceram os mesmos. As leis da física não mudaram só porque ele estava pilotando um Boeing em vez de um F-16.
Ele examinou os instrumentos novamente, notando o nível de combustível, altitude e velocidade. Depois, ele voltou para olhar o radar e a posição do avião inimigo.
"Tudo bem," ela disse em voz baixa. "Aqui está o que vamos fazer."
O avião hostil permaneceu próximo, continuando suas travessias intimidadoras.
"Eles esperam que a gente entre em pânico", disse Mara. "Eles esperam que obedeçamos ou tentemos fugir."
O capitão olhou para ela.
"Qual é a terceira opção?"
O maxilar de Mara ficou tenso.
"Nós os superamos em esperteza."
O que se seguiu seria tema de discussão nos círculos da aviação por anos.
Mara assumiu o controle com mão firme e mente clara. O avião hostil continuou a segui-los, ocasionalmente fazendo passagens agressivas que semeavam pânico na cabine.
Mara já tinha visto essa tática.
Era intimidação.
"Eles estão nos testando", disse ao capitão. "Eles querem ver como reagiremos. Cada vez que hesitamos, eles ficam mais ousados."
O rádio crocitou novamente.
"Voo 417, você tem 1 minuto para se ajustar. Mude de curso agora."
Mara não respondeu.
Em vez disso, ele observou o radar e seguiu a trajetória da aeronave hostil. Ele voava em uma sequência que reconhecia: passes agressivos, reposicionamentos, passes agressivos, reposicionamentos. Quem quer que estivesse pilotando era habilidoso, mas também previsível.
E Mara conhecia o padrão.
"Em cerca de 30 segundos eles farão outra passagem", disse ele. "Quando isso acontecer, vou mudar de altitude e velocidade de um jeito que eles não esperam. Segure firme."
O capitão segurou o apoio de braço.
"Este é um avião comercial com 300 passageiros. Não podemos realizar manobras de combate."
"Não estamos realizando manobras de combate", disse Mara calmamente. "Estamos realizando manobras evasivas. Há uma diferença. Confie em mim."
No radar, a aeronave hostil iniciou sua manobra de aproximação.
Mara o observou se aproximar, esperou e contou a distância em silêncio.
Então ela se moveu.
"Agora."
Ela empurrou os controles para frente.
O avião desceu rapidamente em uma descida controlada, abrupta o suficiente para lançar objetos para dentro da cabine e provocar gritos entre os passageiros, mas precisa e calculada. O avião inimigo, esperando que eles permanecessem em voo nivelado ou subissem, passou pelo ponto de interceptação e disparou por cima.
Mara imediatamente se virou e corrigiu o curso, criando distância entre ela e o avião que a perseguia.
"Isso nos dá talvez 2 minutos de vantagem", ele disse. "Então eles se recuperam e voltam."
O capitão fixou o olhar à frente.
"Qual é o objetivo final? Não podemos semeá-los. Não temos armas. Somos um alvo fácil."
Mara continuou refletindo sobre as várias possibilidades.
Ele estava certo. Em um combate prolongado, uma aeronave comercial não poderia derrotar uma aeronave militar. Mas não era necessário que eles vencessem.
Eles só precisavam sobreviver tempo suficiente para que outra pessoa interviesse.
"Temos algum contato com algum canal militar?" ele perguntou.
"Não. Apenas frequências civis."
"Então precisamos de atenção. Em algum lugar, satélites estão monitorando esse espaço aéreo. Em algum lugar, sistemas de alerta precoce estão monitorando a região. Devemos nos tornar impossíveis de ignorar."
Ele alterou as configurações do transponder, ativando todos os sistemas de identificação com os quais a aeronave estava equipada.
O rastreamento do radar deles agora seria transmitido com a maior intensidade possível para qualquer um que estivesse observando.
"Isso vai sinalizar ao controle de tráfego aéreo que algo está errado", disse o capitão.
"É exatamente isso que eu quero", respondeu Mara.
Antes que pudesse calcular o próximo movimento, o interfone da cabine tocou.
"Cockpit, aqui Julia lá embaixo."
A voz da chefe de bordo estava tensa e animada.
"Temos um problema. Dois passageiros da classe executiva estão agindo de forma estranha. Eles continuam tentando acessar o compartimento de serviço e um deles acabou de dizer algo sobre a necessidade de completar uma missão. Os passageiros próximos estão ficando assustados."
Mara sentiu o sangue congelar em suas veias.
Não era mais apenas uma ameaça externa.
Havia pessoas a bordo que trabalhavam com quem estava pilotando o avião lá fora.
"Não permita que eles acessem nenhum compartimento", disse Mara pelo interfone. "Mantenham eles sentados. Use a força se necessário. É uma questão de segurança."
Ele desligou o interfone e olhou para o capitão.
"Está tudo coordenado", ele disse. "O avião lá fora, os passageiros lá dentro. Alguém planejou tudo."
"Mas por quê?" perguntou o capitão. "O que eles querem?"
Mara examinou a rota de voo modificada, as coordenadas remotas sobre o Atlântico, o tempo, a pressão.
"Eles querem esse avião", ele disse. Então ela parou, outro pensamento surgindo em sua mente. "Ou querem algo neste avião. Ou..."
Ele fez uma pausa.
“… eles querem alguém neste avião."
A consciência me atingiu forte.
E se não fosse aleatório de jeito nenhum?
E se ela fosse o alvo?
Mara tinha inimigos. Durante seus anos na Força Aérea, participou de missões que interromperam operações, destruíram alvos e criaram inimigos que não o esqueceram. Ele havia deixado o serviço militar depois que sua última missão deu errado, depois de ter terminado tragicamente e causado baixas.
Ela acreditava que aposentadoria, roupas civis e anonimato a afastariam desse mundo.
Mas talvez aquele mundo nunca a tenha deixado ir.
"Capitão", disse ele lentamente, "havia algo incomum na lista de passageiros? Reservas de última hora? Algum sinal de alerta para segurança?"
O capitão balançou a cabeça.
"Não me disseram. Por quê?"
Antes que Mara pudesse responder, o avião hostil fez outra passagem.
Desta vez, chegou ainda mais perto.
A turbulência fez o avião balançar. Os alarmes soaram. O comandante lutava para manter a aeronave estável, e Mara assumiu os controles pelo tempo necessário para ajudar a estabilizá-la.
"Eles estão ficando desesperados", disse ele. "O que significa que nosso tempo está acabando."
De volta à cabana, a situação estava piorando.
Os dois passageiros desconfiados mostraram-se abertamente hostis. Os outros passageiros se afastaram deles, empurrando em direção aos corredores. Os comissários de bordo haviam formado uma barreira, mas a ameaça de violência era inconfundível.
Um dos homens se levantou, a jaqueta aberta o suficiente para que os vizinhos vissem o que parecia ser uma arma no cinto.
"Todos fiquem calmos", disse ele secamente. "Não queremos machucar ninguém, mas este avião está mudando de curso."
Uma mulher gritou.
Um bebê começou a chorar.
Então, inesperadamente, alguém se levantou.
Do assento 24D, um homem corpulento de terno de trabalho se levantou e se virou para encará-lo.
"Acho que não," disse ele em voz baixa.
O passageiro desconfiado se virou, levando a mão à jaqueta.
O empresário era mais rápido.
Em um único movimento, percorreu a distância e pousou o homem no chão. A arma deslizou pelo corredor.
O caos se instalou.
O segundo passageiro suspeito tentou correr para a cabine, mas outros passageiros bloquearam seu caminho. Um policial aposentado, sentado no assento 18B, o agarrou.
Em segundos, ambas as ameaças foram neutralizadas por pessoas comuns que se recusaram a desistir.
No cockpit, Mara podia ouvir a confusão através da porta reforçada.
"Eles conseguiram", disse o capitão enquanto as atualizações chegavam da tripulação de cabine. "Os passageiros os neutralizaram."
Mara sentiu uma breve onda de orgulho.
Eles não eram soldados. Eles não eram profissionais treinados para combate. Eram empresários, turistas, pais, pessoas comuns que encontraram coragem em seus momentos de necessidade.
Mas o avião lá fora ainda estava lá.
Continua girando em círculos.
Ainda estou esperando.
Então o rádio ligou novamente.
Desta vez, a voz não estava distorcida.
Estava claro.
E Mara imediatamente reconheceu aquele sotaque.
"Capitão Dalton", disse a voz. "Eu sei que você está naquele avião. Eu sei que você está naquela cabine. Tudo isso acabará quando você obedecer."
O capitão olhou para ela.
"Eles sabem seu nome."
Mara fechou os olhos por um instante.
"Eu conheço essa voz", disse ele.
"O nome dele é Victor Klov. Eu enfrentei isso em uma situação de combate há três anos. Meu esquadrão interceptou o dele em uma área disputada. Nós vencemos."
Ele fez uma pausa.
"O irmão dele não tem."
O rosto do capitão mudou.
"Isso é um assunto pessoal."
"Sim," disse Mara. "Ele está me caçando."
E agora, ele percebeu, 300 pessoas inocentes estavam envolvidas.
A culpa a invadiu de repente, mas conseguiu reprimir isso.
Haveria tempo para culpa depois.
Naquele momento, ele precisava pensar.
Ela pegou o rádio.
"Victor", disse ela, usando seu nome de propósito. "Você me quer? Bom. Mas essas pessoas não têm nada a ver com nosso passado. Deixe-os ir."
Victor riu.
"Você acha que estou aqui para me vingar? Não, Capitão. Estou aqui para provar algo. Você tirou tudo de mim. Agora vou tirar tudo de você."
Mara pensou rapidamente.
Victor tinha a vantagem: aviões, armas, posição.
Mas ele também tinha limites.
Era espaço aéreo internacional. Quanto mais a situação se arrastava, maiores as chances de uma resposta militar. Cada minuto que passava diminuía suas chances de sobrevivência.
